segunda-feira, 7 de maio de 2012

O nascimento da Sociologia


A partir do século XV começaram a se alterar os conceitos que os europeus tinham sobre o mundo. As mudanças então ocorridas foram tão importantes que  se viu  nelas o anúncio de uma nova era na história da humanidade: os tempos modernos.

Que mudanças foram essas, afinal? Foram muitas, de várias ordens e não aconteceram todas  ao mesmo tempo. Ao contrário, estenderam-se ao longo de séculos. A expansão da atividade comercial e das cidades foi sem dúvida um dos principais prenúncios da nova era, mas outras mudanças contribuíram para consolidá-la. A redescoberta da Antiguidade e a releitura do pensamento greco-romano empreendidos pelos chamados humanistas os levaram a acreditar que DEUS havia colocado o ser humano no centro do universo. O humanismo constituiu o âmago do Renascimento, movimento intelectual e artístico que nasceu na Itália no século XIV e floresceu nos séculos VX e XVI, deixando grandes nomes como Leonardo da Vinci (1452-1519) e Michelangelo (1475-1564).

As realizações renascentistas nos campos da pintura, escultura, arquitetura, letras e filosofia abriram uma alternativa ao pensamento religioso, até antão dominante, como forma de conhecer, interpretar e transformar o mundo.
A divulgação das novas ideias foi beneficiada pela invenção da imprensa por Gutenberg  1394-1464), meados do século XV. Foi também época que a ciência moderna começou a se constituir, através do que foi chamado de Revolução Científica. O astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (1473-1468) propôs a teoria heliocêntrica afirmando que os planetas giravam em torno do Sol. Antes dele, a interpretação da Igreja Católica, segundo a qual o Sol girava em torno da Terra. Não foi só a astronomia que foi impulsionada a partir de então. A medicina também teve um grande desenvolvimento, graças aos estudos sobre o corpo humano, feitos a partir da dissecação de cadáveres, até então vista como profanação.

Outra mudança importante no início dos tempos  modernos foi a ampliação dos horizontes geográficos dos europeus,  com a conquista de novos mares e novos continentes, que levou a descoberta de novas fonte de riqueza. A  expansão marítima, liderada por Portugal e Espanha, seguiu a expansão colonial. Todo esse processo foi acompanhado, nas diferentes potências europeias, pela centralização do poder político.



Ao longo dos dez séculos que durou a Idade Média, nem tudo permaneceu sempre igual. Mas alguns traços foram característicos desse longo período, e são eles que nos interessam. Como as pessoas se ocupavam, como se relacionavam, quem detinha o poder, que força, afinal, tinha a Igreja? Enfim, como estava organizada a sociedade?
A sociedade medieval era composta basicamente de três de ordens: o clero, a nobreza e os camponeses. O clero surgiu com a cristianização e o fortalecimento da Igreja Católica na Europa. A nobreza era formada essencialmente por guerreiros vassalos, de nobres mais poderosos, seus suseranos, aos  quais  deviam fidelidade; em troca de proteção e retribuição, em  geral concedida  sob forma de uma terra, chamada de feudo, cuja posse era hereditária. Por seu lado, os camponeses eram servos dos nobres senhores  feudais.
Um aspecto importante é que na sociedade medieval praticamente não havia mobilidade social.  A sociedade medieval pode ser chamada de Estamental – trata de um tipo de estratificação social em que as diferentes camadas, ou estamentos, não chegam a ser tão rígidos quantos as castas, nem tão flexível quantos as classes sociais.
Na  Idade Média havia ainda outro tipo de imobilidade: a maioria das pessoas  nascia e morria no mesmo lugar.
Para essa sociedade a agricultura era a principal fonte de riqueza, e a terra era o bem mais cobiçado. Os feudos eram as unidades produtivas básicas, mas nem sempre forneciam tudo de que seus habitantes precisavam para se manter. Para suprir suas necessidades, as pessoas começaram a praticar o comércio.
No mundo feudal, o poder não podia ser centralizado. Se cada feudo era regido por um nobre que mantinha uma relação de vassalagem com seu suserano. O rei não podia comandar todos eles. Essa fragmentação facilitava a ação centralizadora da Igreja, pois apenas a religião atravessava todas as barreiras.
Deus era o centro e a explicação de tudo:  conforme pregava a Igreja, era quem determinava por que uns deveriam ter uma posição social melhor e outros  pior, era quem estabelecia quem  deveria mandar e como na esfera política: era quem decidia o que se poderia fazer com o dinheiro, era quem regia o próprio tempo.
Os clérigos procuravam ensinar aos fiéis que o mundo, por ser criação de Deus, só podia ser por Ele modificado, não cabendo aos homens e mulheres transformar o que Deus havia feito. A crença no princípio de que, o mundo é porque Deus assim o fez, confere sentido à imobilidade social que prevaleceu no cenário medieval.

A expansão comercial foi um dos principais prenúncios dos tempos modernos.
Os comerciante cristãos viviam então um grande dilema, dividido entre o desejo  ver seus negócio florescerem e o medo de ofender a  Deus. De toda forma, atividade comercial se expandiu, a ponto de se pode falar em uma Revolução Comercial a partir do século XII. No século XIII já havia uma intensa movimentação de comerciantes trazendo mercadorias de diferentes lugares para feiras que atraíam grande número de pessoas.
A  medida que o comércio europeu se expandia, a Igreja foi encontrando formas de amenizar a censura às iniciativas dos comerciantes . Uma delas foi defender a ideia de que as atividades dos mercadores traziam conforto a muita  gente. A ideia de bem comum.
A intensificação da atividade comercial provocou importante transformação no cenário rural até então predominante, na medida em que contribuiu para o renascimento da vida urbana. Isso não quer dizer que no fim da Idade Média tenha ocorrida um ressurgimento das cidades do mundo antigo. A Polis  grega e a cidade romana foram criações basicamente agrárias, enquanto as cidades que agora surgiam ou prosperavam na Europa Ocidental eram criações de comerciantes, mercadores e artesãos – pessoas existencialmente dependentes de uma economia mercantil.

 No  século XVIII os efeitos Revolução Comercial já se fazia sentir, as cidades já estavam bem mais desenvolvidas, a Revolução Científica seguia seu curso, as fronteiras do mundo conhecido eram mais extensas.
Na última década do século XVII, porém, percebeu um novo “Renascimento” estava começando. O movimento intelectual que se iniciou então e desabrochou no século seguinte, foi chamado de Iluminismo e é considerado pelos estudiosos o primeiro passo na construção de uma cultura burguesa.
O século XVIII ficou conhecido na história do pensamento Ocidental  como aquele que viu prosperar o grande movimento de ideias em favor da liberdade de pensamento e de livre curso da razão humana que foi o Iluminismo.
O Iluminismo estimulava, no  plano das ideias, uma cultura centrada na capacidade e na autonomia  do indivíduo e defendia o predomínio da razão sobre a fé. Razão e Ciência, e não o submisso dos  dogmas, deveriam ser a base do entendimento do mundo. A razão era característica do ser humano em contraposição dos animais; a ciência, o desenvolvimento da capacidade humana de desenvolver a razão.
A aposta na razão tem suas consequências. Ver o mundo como fruto da ação dos homens é diferente de vê-lo como resultado da vontade de Deus. Uma primeira consequência dessa maneira de ver foi apostar na capacidade de mudar o que era feito da ação dos próprios homens. As injustiças, os sofrimentos causados pelo fato de uns terem muitos e outros poucos, as condições desiguais em que viviam as pessoas, tudo isso poderia ser alterado em nome de uma sociedade mais humana. Se o homem fez, ele mesmo pode modificar: foi essa ideia que inspirou as duas grandes revoluções política do fim do século XVIII, a Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa de 1789.
Os ideais que moveram os líderes da Revolução Americana já eram cultivados na Europa, principalmente na França, onde a monarquia absoluta comera a ser questionada. As críticas se dirigiam ao poder centralizado, à manutenção de privilégios excessivos para a nobreza e  o clero, e a exploração dos homens comuns, plebeus, sem que se pudesse impor ao poder discricionário dos governantes o limites da ação dos governados. Entre os plebeus, os burgueses, que se dedicavam as atividades do comércio, da troca, do mercado, sentiam-se freados em seus propósitos, limitados em suas ambições. Haviam aprendido com os iluministas que os homens eram iguais por serem racionais. Se eram iguais, nada justificava o fato de não poderem se desenvolver segundo suas capacidades, seus talentos e suas disposição.
Os  ideais iluministas inspiraram, assim, o lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Outra consequência dos ideais iluministas foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documentos que proclamou a igualdade entre todos, pondo um ponto final ao argumento que justificava os privilégios de origem, rompeu com a crença de que, nascidos em uma camada superior os indivíduos teriam garantias de nela permanecer até a morte, ou o contrário, nascidos em uma camada inferior estariam para sempre impedidos de ascender a uma posição socialmente valorizada.

 No quadro das grandes  revoluções do século XVIII, há ainda uma que não teve caráter político, mas que representa, segundo Eric Hobsbawm , o mais importante acontecimento da história do mundo desde a agricultura. Trata-se da Revolução Industrial que ampliou os meios de sobrevivência dos homens e das cidades  e permitiu uma nova forma de sociabilidade.
A expressão Revolução Industrial foi aplicada às inovações técnicas que alteram os métodos de trabalho tradicionais e, a partir das últimas décadas do século XVIII propiciaram um grande enriquecimento econômico.
A essência da Revolução Industrial está, na verdade, na ideia de que a mudança é a norma.
A fábrica tornou-se um importante local de trabalho; os capitalistas tornaram-se os detentores  dos meios de produção; o trabalhador, contratado livremente, passou receber salário.

A trajetória das sociedades ocidentais, não conduziu os homens ao paraíso. A vitória da razão, dos princípios democráticos oriundos das Revoluções Americana e Francesa e do capitalismo não foram solução para todos  os problemas.  Ao contrário, logo surgiram desmandos e outras explorações. O século XIX veria o novo sistema capitalista baseado na propriedade privada e tendo como principais atores a burguesia e o proletariado, produzir prosperidade e pobreza, avanços e miséria.
As transformações sofridas pela sociedade moderna no campo intelectual, político e econômico acabaram por gerar perguntas que exigiam o esforço de pensadores para poderem responder a elas: se os homens têm direitos iguais, se todos são cidadãos, porque a sociedade e tão desigual? Como explicar e tratar essas diferenças? Como combinar tradição com modernidade, costumes com novidade. Foi na cidade que essas questões afloraram, e foi na cidade que a proposta de pensar sobre elas se desenvolveu. A sociologia nasceu com esse desafio: compreender as alterações profundas pelas quais passaram as sociedades e refletir sobre a maneira como os homens e mulheres reagiram a elas.
Há outra condição que também tem que ser levada em conta para podermos entender o “nascimento” da sociologia: trata-se de um campo de conhecimento que depende da liberdade de pensamento, do exercício da razão e da controvérsia, da possibilidade de manifestação pública de ideias distintas e muitas vezes opostas.



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